Benefícios da soneca - revista Viva Saúde



Cientistas comprovam: a popular siesta traz benefícios para o cérebro, ajuda a consolidar a memória de longo prazo e ainda previne a obesidade


Texto: Leonardo Valle / Ilustração: Amanda Matsuda / Adaptação: Ana Paula Ferreira


Estudo aponta que 90 minutos de soneca são capazes de consolidar a memória de longo prazo — aquela que não desaparece ou se mantém ativa mesmo após muitos anos.

Responda rápido: o que Margaret Thatcher, Bill Clinton e Albert Einstein — personalidades influentes e brilhantes em suas áreas de atuação — tinham em comum? A resposta é fácil: o hábito de tirar um cochilo rápido durante algum momento do dia. A prática, aliás, coleciona benefícios e é sugerida não somente para políticos e cientistas. Por exemplo, se você faz parte do time de pessoas que não consegue dormir as oito horas diárias indicadas pelos especialistas, saiba que pode ser mais saudável tirar uma soneca reparadora após o almoço do que forçar os limites do corpo com xícaras de café. “O sono é um processo ativo, onde há reparações no organismo, bem como a produção de hormônios. Assim, o cochilo pode ser uma saída para compensar o sono incompleto”, reforça Ester London, neurologista do Hospital VITA Batel (PR).

Cuca fresca

O primeiro grande beneficiado com a popular siesta é o cérebro. Uma pesquisa recente da Universidade da Califórnia mostrou que uma hora de cochilo é capaz de restaurar o órgão e melhorar sua capacidade de funcionamento. Para isso, os pesquisadores dividiram 39 jovens adultos em dois grupos. Ao meio-dia, todos foram submetidos a testes de aprendizado. Porém, apenas metade recebeu o aval para tirar uma soneca de 90 minutos ao final do processo. Reunidos novamente às seis da tarde para uma nova bateria de exames, houve uma diferença gritante nos resultados: quem pode dormir se saiu muito melhor. Nesse caso, a principal hipótese foi que o sono ajudou a apagar do cérebro a memória de curto prazo e abriu espaço para novas informações. Como um computador, que depois de limpo, passa a funcionar de forma mais eficiente.

Aprendizado completo

Outra boa notícia relacionando siesta e memória vem da Inglaterra, mais precisamente da Universidade de Haifa (Israel). Um estudo publicado na revista científica Nature Neuroscience defendeu que 90 minutos de soneca também são capazes de consolidar a memória de longo prazo — aquela que não desaparece ou se mantém ativa mesmo após muitos anos. O teste envolveu quatro grupos, que foram submetidos a diferentes atividades motoras. Após a siesta, houve melhora na memorização e na execução dos exercícios. “É durante o sono que gravamos o que aprendemos ao longo do dia. Mas isso ocorre no sono profundo, dos sonhos, que geralmente acontece à noite”, destaca Shigueo Yonekura, neurologista do Instituto de Medicina e Sono de Campinas (SP).


Seria a siesta também benéfica para a prevenção à obesidade? Apesar de não haver estudos científicos específicos sobre o assunto, tudo indica que sim. Isso porque, com a prática da siesta, há a alteração de dois hormônios relacionados à fome e à saciedade: a grelina e a leptina. “Quem dorme pouco durante a noite tende a ter um desequilíbrio nestes dois hormônios, por isso, costuma sentir mais fome no decorrer do dia”, explica Legey. “Com ela, pode haver a recuperação do equilíbrio dos hormônios e a pessoa se sente saciada mais facilmente, contribuindo para a perda de peso”, complementa.

O fator fisiológico

Muita gente não sabe, mas a soneca faz parte da cultura espanhola. É na Espanha que, religiosamente, a siesta acontece logo após o almoço, no intervalo entre 13h e 15h. A escolha por este período, entretanto, não é aleatória. “Estudos mostram que entre 12h e 14h ocorre uma redução natural da pressão corporal e do ritmo metabólico, favorecendo este tempo de descanso”, justifica o especialista Legey. E mais: aquela sonolência após o almoço também é considerada fisiológica. Ela ocorre porque a maior parte do sangue do organismo é direcionado ao sistema digestivo, que fará o processamento dos alimentos. “Assim, pode haver carência de sangue no sistema neurológico. E toda vez que faltar sangue ou oxigênio no cérebro, haverá sonolência”, explica Antônio Cezar Galvão, neurologista do Hospital 9 de Julho, de São Paulo (SP).

Revista VivaSaúde edição 122